sexta-feira, 18 de julho de 2008

Portugal Boca da Europa

Pela sua actualidade e por ser uma análise correcta, embora não politicamente correcta uma vez que os nossos governantes estão de cócoras a olhar os Pirinéus em vez de estarem de pé e em frente do mar a olhar para o Oceano.

Também não admira muito agora que o Ministério dito da Inducasão (nova grafia do acordo) não acha conveniente que os alunos percam tempo a estudar História.

O Público deu à estampa em 18 de Julho o texto que a seguir transcrevemos:


Portugal pode ser a boca da Europa
18.07.2008, Celestino Flórido Quaresma
O aumento na tonelagem dos navios pode esgotar um dia a capacidade do Suez, reforçando a importância de Sines


Portugal, no espaço europeu, é geograficamente periférico. Mas se nos virarmos para o Atlântico, como fizemos no século XV, podemos ser o centro. Enquanto a Europa se vai organizando para fazer face às novas economias emergentes, porque não convencer os nossos governos a pensar à D. João II, à D. Manuel I, a pensar global, a pensar Atlântico?

A Península Ibérica é a cabeça da Europa e Portugal (como dizia Fernando Pessoa na Mensagem) é o rosto nessa cabeça. E é no rosto que está a boca. E é a boca que alimenta o corpo. A boca são os nossos portos marítimos: Sines, Setúbal, Lisboa, Aveiro e Leixões. São postos avançados que a Europa tem no Atlântico. Mas a boca precisa do tubo digestivo. Precisa de acessibilidades ferroviárias, com capacidade e fluidez compatíveis com a ligação destes portos a Espanha. É preciso pensar no transhipping para as ligações aos outros portos europeus. Será mais económico e evita a barreira dos Pirenéus. Há que pensar nas nossas infra-estruturas portuárias em termos de estratégia global. Nesta matéria, nós temos excepcionais condições. Basta pôr a funcionar em pleno os nossos portos do Atlântico.

As auto-estradas do mar são um projecto europeu que Portugal tem liderado. As auto-estradas marítimas são ligações regulares predeterminadas entre portos que, além de pouparem tempo de imobilização e custos no transporte através da redução dos procedimentos administrativos, permitem que a carga seja entregue à porta dos clientes, uma vez que podem ser combinadas com transportadores rodoviários. O conceito de auto-estrada do mar foi estabelecido de acordo com a visão das empresas que necessitam de transportar as suas mercadorias, importadoras e exportadoras. São serviços porta a porta, com uma parte do trajecto feito por mar, caracterizados por uma oferta frequente, com tempos de viagem e preços competitivos face às soluções rodoviárias ou ferroviárias. Nestas linhas, o dono da mercadoria transportada tem a possibilidade de aceder à informação sobre a carga em trânsito, como a localização, data prevista para embarque no porto de origem, data prevista para descarga ou data prevista para a entrega final.

Portugal iniciou negociações com Espanha e França para a criação de uma auto-estrada marítima pelo Norte, ligando o Porto de Leixões àqueles dois países. Além desta ligação regular, os maiores portos portugueses estão, ao que consta, a analisar a viabilidade económica e a avaliar potenciais mercados para novas auto-estradas marítimas, que se juntarão às que estão já em funcionamento. Lion Service é o nome do novo serviço regular directo de transporte marítimo de mercadorias entre o Extremo Oriente e Portugal, via Porto de Sines. Os portos de Leixões e Sines parece que têm já estabelecidas duas ligações regulares com congéneres na Holanda, no Reino Unido e na Itália, mas o objectivo é alargar esta possibilidade aos restantes principais portos comerciais de Portugal continental: Aveiro, Lisboa e Setúbal. Assim, os cinco maiores portos portugueses ficariam todos a funcionar no projecto de auto-estradas marítimas. As administrações portuárias portuguesas, na sequência de uma política concertada em que o nosso Governo parece empenhado, terão de trabalhar, neste sentido, com as suas congéneres internacionais.

O maior navio porta-contentores até hoje construído no mundo pela firma SHI-Samsung Heavy Industries para as China Shipping Container Lines, com o nome de Xin Los Angeles, tem 321 metros de comprido, 43 metros de largura e 15 metros de calado e a capacidade de 9600 TEU (TEU -Twenty-Feet Equivalent Unities é um contentor com 20 pés de comprimento e 8x8 pés de secção). A firma SHI tem já projectado um navio para 12.000 TEU e tem outro em estudo para 16.000 TEU. E continuará a construir navios cada vez com maior tonelagem.

Em face da evolução crescente dos mercados mundiais e do desenvolvimento exponencial na China e na Índia, Portugal tem Sines, que é um porto de águas profundas, capaz de receber esses navios do futuro. Sines é o porto europeu mais privilegiado porque pode receber os navios de gigantesca tonelagem e de longo curso que ligam ao Oriente as duas margens do Atlântico.

O tráfego marítimo com o Oriente faz-se através do canal de Suez e isso torna mais competitivos os portos de águas profundas do Mediterrâneo. Mas será que o aumento que está a verificar-se na tonelagem e nas dimensões dos navios porta-contentores encomendados pela China não esgotará um dia a capacidade, em calado, do canal de Suez e não obrigará a retomar a rota do Cabo? E a rota do Cabo não se desenvolverá com o previsível aumento do consumo nos países banhados pelo Atlântico Sul? As auto-estradas marítimas provenientes do Atlântico Sul reforçarão, então, a importância de Sines como verdadeira porta atlântica da Europa. É preciso prestar atenção ao futuro.

No jogo da estratégia ao nível europeu e global não podemos menosprezar as nossas infra-estruturas portuárias. São os nossos melhores trunfos. Preparemos o futuro com esta estratégia e, então, seremos um país central. Presidente do Conselho Directivo da Ordem dos Engenheiros - Região Centro

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