domingo, 23 de janeiro de 2011

Linha do Algarve

O jornal BARLAVENTO deu à estampa uma reportagem sobre uma viagem no serviço regional entre Tavira e Faro, no dia 21 de Janeiro de 2011.
Pelo interesse do texto transcrevemos abaixo o referido texto, com a devida vénia.


Devemos, no entanto, efectuar uma correcção ao texto na altura em que o jornalista, possivelmente por puro engano que não ignorância, refere que as automotoras já andaram na linha do Tua, o que nos parece de certo modo difícil por a linha do Tua ser de bitola reduzida (métrica) ao invés da do Algarve de bitola larga.


Regional

Comboios: Apenas pequenas deslocações são compatíveis com a linha do Algarve


filipe antunes


Chegar à estação de Tavira não é complicado. O horário já fora consultado na Internet, mas, para segurança, peço um em papel. «Não há», respondem-me do guichet. «E em Faro?», pergunto. «Também não devem ter». Compro o bilhete: 2,45 euros.

Um minuto depois da hora, duas composições a diesel entram lentamente na estação. Subo pela última carruagem, que me parece de primeira classe. Como não tenho a certeza, avanço para a carruagem seguinte, onde encontro assentos menos confortáveis, embora mais espaçosos.

A viagem começa pela campina de Tavira. Pergunto ao revisor se o bilhete está limitado às carruagens normais. Fico a saber que dá acesso a todas: já não há distinção entre primeira e segunda classe.

Num dia de semana, à hora de almoço, as carruagens estão a meio-gás, embora as faixas etárias sejam heterogéneas, desde os 20 aos 60 e muitos anos. Depois de uma breve paragem na estação da Luz, cujo edifício já foi encerrado e entregue aos graffiti, entram duas pessoas. Próxima paragem: Fuzeta. Aqui, há buliço e jovens.

Nas mesmas carruagens que passaram pela linha do Tua e agora servem o Algarve, não há climatização. Há janelas que se abrem ao gosto de cada um. Dois lugares depois de mim, um telemóvel toca, alguém atende alto com um francês arranhado para depois se colocar à janela.

O ar frio de Janeiro começa a circular pela carruagem, sem que o homem se importe. Há quem se sinta incomodado, mas fica-se por um olhar. Chega o revisor. A janela fecha-se.

Apesar de as carruagens estarem limpas, há quem não se preocupe com isso. Ao meu lado, um passageiro coloca um pé em cima do assento da frente e outro em cima da bancada de apoio. O revisor passa novamente, olha de relance, embora não comente. O passageiro não cede…

Pouco mais de vinte minutos depois, sem atraso, chega-se a Olhão. Antes, e em amena cavaqueira, um grupo de quatro pensionistas aproveita os bilhetes de terceira idade. As conversas giram em volta de um roubo, mas ainda assim vão dizendo que as viagens de dia e em carruagens cheias «não lhes metem medo».

Em Olhão, cruzam-se dois comboios, há movimento. Daqui, a viagem segue a bom ritmo até Faro. Dez minutos de caminho, por um euro, são o convite da CP para quem quiser deixar o carro em casa, até porque aqui a estação está dentro da cidade e evita os engarrafamentos à entrada de Faro.

A chegada a Faro faz-se à hora marcada. Na linha ao lado, o Alfa Pendular – o comboio mais moderno da CP – prepara-se para arrancar para Lisboa. Ao seu lado, ouve-se o chiar de uma composição grafitada, das mais antigas da frota, que se prepara para rumar até Vila Real de Santo António.

Lembro-me de que me falta o horário. Vou à estação. Não há o formato original, mas alguém se lembrou de uma solução. A fotocópia serve perfeitamente.

Não pretendo ir até Lagos, mas dou uma espreitadela ao placard. São 14h20, mas o comboio para a cidade dos Descobrimentos só partirá quase duas horas depois, para chegar ao destino por volta das 18 horas.

Fico a saber que esta é a pior hora para atravessar o Algarve. Depois das 13h00, são precisas seis horas para cruzar, de comboio, os 150 quilómetros que separam Vila Real de Santo António de Lagos.



21 de Janeiro de 2011 09:33
filipe antunes



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