quarta-feira, 1 de julho de 2009

Contas de Merceeiro

É sempre bom irmos relembrando, por isso, transcreve-se um artigo dado à estampa na Revista Ferroviária.



Conta de merceeiro

09/04/2009 - Notícias de Vila Real (Portugal)
Rodrigo Sá, colunista

Corria o ano de 1990 quando, de uma assentada, fecharam centenas de quilómetros de via-férrea no nosso País. Sem aviso, sem apelo nem agravo, autarcas e cidadãos foram simplesmente informados que já não havia comboio. À velhinha linha do Corgo foram retirados dezenas de quilómetros, desde Vila Real até Chaves. Alguns sentiram que esses quilómetros lhe foram roubados… As linhas eram deficitárias, os custos de exploração e manutenção eram superiores aos proveitos, logo as linhas fechavam.

O Primeiro-ministro da altura, recordemo-nos, chamava-se Aníbal Cavaco Silva. Nem de propósito, no dia em que foi comunicada a suspensão da circulação ferroviária na parte da linha do Corgo que escapou a essa febre de 1990, o agora Presidente da República Cavaco Silva, falou da necessidade de pesar custos e proveitos e decidir investimentos com base nessa simples conta de deve e haver. Há retorno, investe-se. Não há retorno, encerra-se ou não se constrói. Mas a realidade é mais complexa do que uma conta de merceeiro.

O Primeiro-ministro, agora, chama-se José Sócrates, e considera que há mais variáveis que devem ser tidas em conta. Variáveis como solidariedade, diferenciação positiva, investimento no interior, continuidade do território nacional. Os acontecimentos de 1990 justificam a reacção que vimos nas populações em 2009, aquando da suspensão da circulação. O receio de que o provisório passe a definitivo, de que linha não volte a abrir levou as pessoas para a rua a defenderem o que é o seu património cultural, além de um meio de transporte. Mas desta vez tudo será diferente.

As razões por detrás da rápida suspensão da circulação na via foram apenas de segurança, após esta ser devidamente estudada. E logo depois da urgente e inadiável decisão, a Sra. Secretária de Estado dos Transportes, Ana Vitorino, veio a Vila Real, falou com Presidentes de Câmara, de Junta de Freguesia, representantes de instituições ligadas ao turismo ou desenvolvimento regional e anunciou o que se esperava: a linha está fechada para protecção de quem lá circula, mas será reaberta, depois de um ano e meio de obras, depois de investimentos superiores a 27 milhões de euros.

Ou seja, aquilo que era o fim da linha do Corgo é, afinal, um importante investimento na nossa região, que potenciará a vertente de transporte associada ao comboio, mas também a vertente turística e ambiental. Faz todo o sentido. Numa altura em que se fala, com insistência, no investimento na ferrovia de alta velocidade, terá que se apostar também na requalificação das vias já existentes. Imagine-se o que seria construir uma rede de auto-estradas, mas não manter as vias municipais, IP`s e IC`s que constituem a malha mais fina do sistema rodoviário. As auto-estradas seriam inúteis. O mesmo se passa com a ferrovia.

É necessário apostar num transporte de alta velocidade rápido e concorrencial ao avião, tanto em preço como em tempo, mas melhorando o todo ferroviário nacional. As linhas devem ser melhores, mais seguras, electrificadas e adequadas às reais necessidades dos utentes. O comboio é e deve ser um transporte de futuro. Pela sua comodidade, pelo seu baixo impacto ambiental e já agora, pelas viagens únicas e inesquecíveis que proporciona.

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