No livro “Viagens na Minha Terra”, escrito em 1843, Almeida Garrett faz-nos o retrato do Portugal acabado de sair da guerra civil, que opôs miguelistas e liberais, através de uma viagem de comboio, um meio de transporte que simbolizava a nova via de modernidade, que o país começava a trilhar.Hoje, decorrido mais de século e meio, o comboio passou a ser olhado, pelo menos em função das opções políticas dos governos que se têm alternado no poder, depois do 25 de Abril, como um transporte obsoleto que não justifica qualquer qualquer tipo de investimento. Muitas linhas foram abandonadas e noutras continuam a circular máquinas e carruagens do século passado, que tornam as viagens incómodas e infindáveis, para já não falrmos dos inúmeros acidentes que se têm registado ultimamente e do risco de viajar em determinados troços.
Numa altura em que, um pouco por toda a Europa, o comboio se vai assumindo como um meio de transporte alternativo a outros meios, nomeadamente ao automóvel e, até mesmo ao avião, no caso da alta velocidade, pela sua comodidade e menor impacto ambiental, uma viagem de comboio, entre Vila Real de Santo António e Lagos, demora cerca de três horas, quase o mesmo tempo que se demora, agora, de Faro a Lisboa, depois da modernização desta linha.
O que se verifica é que o Algarve e outras regiões periféricas, como o Alentejo, o nordeste transmontano, as zonas do Vouga, da Lousã e do Oeste, não constituem um investimento prioritário, apesar da modernização de algumas linhas ter superado as expectativas da CP, como aconteceu com a linha Braga-Porto, que movimentou em 2007 o número de passageiros que estava previsto transportar em 2014, 5,1 milhões de utentes.
Enquanto que alguns dos nossos parceiros europeus, acreditam que o comboio é, numa perspectiva de desenvolvimento, um meio de transporte com futuro, quer no que respeita a pessoas como a mercadorias, os nossos governantes continuam de olhos postos nas duas grandes metrópoles, Lisboa e Porto, e na forma de melhor as servir, quer através de um novo aeroporto quer do comboio de alta velocidade, que o Algarve perdeu.
Como que a provar o potencial do comboio, mesmo em termos de transporte de mercadorias, sublinhamos o facto de a estação de Vila Real de Santo António receber, quase diariamente, dezenas de milhares de sacos de cimento com destino às obras do empreedimento Costa Esury, em Ayamonte.
A travessia do Tejo, em Lisboa, quase meio século depois de se ter construído a ponte, é outro exemplo das vantagens das ligações ferroviárias.
Seria bom que o grito da Associação Portuguesa dos Caminhos-de-ferro (APACF), encontrasse eco entre os partidos políticos e as forças vivas do Algarve, de modo a que a nossa região desse o salto qualitativo que se impõe, a este nível e que não fosse necessário esperar outro tanto tempo por uma ligação ferroviária a Huelva, como esperámos pela ponte internacional do Guadiana.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
O Caminho de Ferro em Portugal no Outono de 2008
Da autoria de Fernando Reis a seguir se transcreve o editorial de "O Jornal do Algarve" na sua edição de 4 de Setembro de 2008:
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